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A CAPOEIRA COMO ESPORTE SOCIAL

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  Na História do Brasil facilmente é possível encontrar várias passagens onde é verificada a desigualdade social. Sem cometer anacronismos, estas desigualdades ainda são encontradas em todo o país, com suas diferenças regionais e locais. No caso da cidade do Rio de Janeiro, uma das conseqüências diretas da desigualdade social está na área habitacional, cuja ocupação urbana desordenada sempre foi vista como um problema para as autoridades desde o final do século XIX, após a Proclamação da República (AGCRJ, 2002; KESSEL, 2001). Mas, do mesmo modo que este era um problema das autoridades, esta era, e ainda é, a solução de uma parcela da sociedade que vivia e, em vários casos, ainda vive às margens das políticas públicas.

    Mesmo em pleno século XXI, as políticas públicas não conseguem abarcar toda a população e nem consolidar certos direitos fundamentais previstos na Carta Magna brasileira (BRASIL, 1988). Em sua maioria, a parcela da população que vive ao largo destas são justamente as que vivem em favelas ou outros tipos de comunidades pobres. Essas regiões e localidades têm os problemas sociais agravados por diversos fatores, e neste contexto, alguns segmentos da sociedade são mobilizados e organizados para uma intervenção em setores carentes, como é o caso das ONGs, que intervém através de projetos sociais.

    Uma das formas mais eficazes de intervenção político-social são os esportes e o lazer, e a Capoeira é uma das opções mais viáveis por suas características, história e peculiaridades que facilitam a sua contextualização sócio-cultural para tal finalidade. De forma isolada ou inserida em projetos sociais, a Capoeira é uma atividade-meio que tem sido utilizada de forma eficaz como ferramenta social-pedagógica. O objetivo deste artigo foi analisar e discutir a utilização da Capoeira como Esporte Social na intervenção em comunidades carentes do Rio de Janeiro.

A Capoeira como esporte social

    Em 2008 a Capoeira foi inserida no rol dos Patrimônios Culturais do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional através do registro da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira, incluídos respectivamente no Livro das Formas de Expressão e no Livro dos Saberes (IPHAN, 2009). Considerada uma das manifestações populares mais ricas da humanidade, esta expressão genuinamente brasileira (LUSSAC, 2009) oferece uma vasta diversidade de opções de utilização e um enorme potencial de intervenção em inúmeros setores da sociedade.

    Já são mais que constatados os benefícios proporcionados pela prática da Capoeira: desenvolvimento psicomotor, cognitivo e afetivo-social, desenvolvimento das qualidades físicas e da performance, melhoria da saúde, da qualidade de vida e do estado de Bem-Estar (LUSSAC, 1996 e 2004; REIS, 2001 e 2006; SANTOS, 1990; SILVA & HEINE, 2008). Mas não só o aspecto da saúde é contemplado com a prática da Capoeira. As dimensões culturais, sociais e educacionais que um trabalho com a Capoeira pode abarcar são potencializadas pela contextualização histórica da Capoeira, especialmente no Rio de Janeiro, onde a Capoeira deixou marca indelével na História do Brasil. O jogo-luta pode ser ocorrer em todas as três dimensões sociais do esporte propostas por Tubino (2001).

    Carregada com a memória motora adquirida através de duzentos anos de experiências culturais do povo brasileiro, o jogo-luta da Capoeira comporta aspectos musicais, corporais, entre outros que, por estarem imbricados com os valores comuns da população carente aproxima esta arte da população-alvo de intervenção social tornando-a uma ferramenta pedagógica altamente eficaz.

    No entanto, toda ferramenta pedagógica necessita de um operador, no caso da Capoeira, de um experiente capoeirista, muitas vezes um mestre do jogo-luta. Mas este tópico envolve a formação profissional e, conseqüentemente, levanta a discussão sobre as implicações da regulamentação da Educação Física sobre o campo da Capoeira. Neste artigo não será abordado este assunto, mas certamente, a formação e o preparo profissional são fatores determinantes na intervenção profissional eficaz e positiva em trabalhos com esporte social.

    Propostas de Esporte Social devem sempre estar coadunadas com os princípios e finalidades da educação brasileira. Mesmo tendo sido elaborada para disciplinar a educação escolar, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, também conhecida como LDB, dita no artigo primeiro: “a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (BRASIL, 1996). Portanto, entende-se que os espaços e ambientes onde ocorrem atividades conceituadas como Esporte Social são grandes responsáveis e promovedoras da educação. A LDB em seu artigo segundo também define que a educação deve ser inspirada nos princípios da liberdade e nos ideais de solidariedade humana, e que tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Deste modo, qualquer proposta de Esporte Social deve pautar seus trabalhos nestes princípios e finalidades.

    É interessante que as propostas de Esporte Social também estejam alinhadas com os quatros pilares da Educação do Paradigma de Desenvolvimento Humano da UNESCO e as suas respectivas competências: Aprender a Ser; Aprender a Conviver; Aprender a Fazer; Aprender a Conhecer, respectivamente identificadas como competências Pessoal, Social, Produtiva e Cognitiva. Estas são eixos condutores de ação que devem ser realizadas em projetos, e para cada uma dessas competências devem ser atribuídos significados.

    Storoli (2007), em sua dissertação de mestrado em Psicologia Social, pesquisou trabalhos comunitários de Capoeira atuantes em públicos adolescentes carentes. O objetivo de sua pesquisa consistiu em verificar os significados e os sentidos que os adolescentes entrevistados atribuem à Capoeira como atividade esportiva voltada para a sua inclusão social. Os resultados obtidos por Storoli revelaram que os aspectos de inclusão social não estavam muito claros para os adolescentes entrevistados em sua pesquisa. Os sentidos atribuídos por eles à Capoeira direcionavam-se mais para busca de alternativas às suas condições de vida como, por exemplo, as necessidades de afastamento da rua, do ócio e dos problemas da família /casa. Portando, os trabalhos de Capoeira como Esporte Social devem considerar os sentidos-significados de seu público alvo e os fatores determinantes de sua compreensão, assimilação e transformação.